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Finanças & IA
Empresas do setor financeiro podem usar IA segundo BACEN e CVM?

Empresas do setor financeiro podem usar IA segundo BACEN e CVM?

Sim, BACEN e CVM permitem o uso de IA no setor financeiro. Veja o que os reguladores exigem: governança, gestão de risco, explicabilidade e supervisão humana.

Ana Luiza Hallem
Founding Partner
Empresas do setor financeiro podem usar IA segundo BACEN e CVM?
TL;DR: Sim, empresas do setor financeiro podem usar IA. Não existe — nem no BACEN nem na CVM — qualquer norma que proíba bancos, fintechs, instituições de pagamento, gestoras ou corretoras de adotar inteligência artificial. O que os reguladores exigem não é permissão prévia, e sim governança, gestão de risco e explicabilidade proporcionais ao impacto do uso. A tecnologia é livre; a forma de usá-la é que está sob escrutínio.

A IA é permitida no setor financeiro regulado?

Sim. Não há, na regulação do BACEN ou da CVM, vedação ao uso de inteligência artificial por instituições financeiras, instituições de pagamento ou participantes do mercado de capitais. O ponto que costuma surpreender o executivo menos familiarizado com o tema é que o regulador não trata a IA como uma categoria à parte. Não existe um "regime jurídico da IA" isolado: a tecnologia se encaixa — e é avaliada dentro — das obrigações de governança, risco e segurança que a instituição já cumpre há anos.

É útil separar dois planos que se confundem com facilidade: o da permissão (usar IA é lícito, e ponto) e o das condições (a tecnologia precisa ser adotada dentro do mesmo arcabouço de controles internos, gestão de risco e responsabilização que se aplica a qualquer atividade relevante). Quando o profissional de compliance entende essa distinção, o medo dá lugar a método.

Em quais regras do BACEN o uso de IA se encaixa?

O Banco Central não criou uma norma de IA. Ele espera que a IA seja absorvida pelas estruturas regulatórias vigentes. As principais são:

Gestão de risco operacional

Modelos de IA são, antes de tudo, uma fonte de risco operacional — sujeitos a falhas, vieses e degradação ao longo do tempo. A regulação de risco operacional do CMN/BCB exige que esses riscos sejam identificados, mensurados, monitorados e mitigados de forma contínua. Um modelo de scoring que se desatualiza silenciosamente é um risco operacional como qualquer outro.

Contratação de serviços relevantes em nuvem

Boa parte da IA usada no setor roda em infraestrutura de terceiros. A Resolução CMN 4.893/2021 e as normas correlatas impõem due diligence do prestador, cláusulas de continuidade de negócios, acesso a dados pelo supervisor e exigências de segurança da informação. Contratar um fornecedor de IA é, juridicamente, contratar um serviço relevante — com tudo o que isso implica.

Política de Segurança Cibernética

O tratamento de dados pela IA precisa estar coberto pela política de segurança cibernética exigida pelo BACEN, com controles de acesso, resposta a incidentes e proteção do pipeline de dados que alimenta os modelos.

Prevenção à lavagem de dinheiro (PLD/FT)

Quando a IA é usada para monitorar transações e detectar atividades suspeitas, ela opera dentro do arcabouço de PLD do BACEN e da Lei 9.613/1998. Nuance importante: a automação não transfere a responsabilidade pela comunicação de operações suspeitas. Se o modelo erra por excesso ou por omissão, a obrigação legal continua sendo da instituição.

Open Finance

No ecossistema de compartilhamento de dados, a IA que consome ou processa informações de clientes precisa respeitar consentimento, finalidade e segurança previstos nas regras do Open Finance — o que reforça, e não substitui, as exigências de LGPD.

Nota técnica: a numeração das normas evolui — resoluções são revogadas, consolidadas e renumeradas com frequência. Mais importante do que decorar o número é entender o princípio que ela carrega: gestão contínua de risco, responsabilidade sobre terceiros, segurança e rastreabilidade. Esses princípios são estáveis; os números, não.

Do lado da CVM, o que muda quando se usa IA?

A CVM olha para a IA por uma lente diferente da do BACEN, ainda que complementar. O foco do regulador do mercado de capitais é conduta, transparência e proteção do investidor. Três deveres clássicos ganham contornos novos quando há um algoritmo no meio do caminho:

Dever O que muda com IA Risco se descumprido
Diligência Quem recomenda com apoio de IA continua obrigado a agir com cuidado de profissional diligente — terceirizar a decisão para um modelo não terceiriza a responsabilidade Responsabilização da instituição por dano ao cliente
Suitability A adequação dos produtos recomendados precisa permanecer válida mesmo quando assistida por IA — um robo-advisor que recomenda produto incompatível com o perfil expõe a instituição Autuação e indenização ao investidor prejudicado
Transparência Decisões e recomendações automatizadas que afetam o investidor devem ser explicáveis — o cliente tem direito de entender por que recebeu determinada recomendação Questionamento regulatório e perda de confiança

O exemplo mais didático é o do robo-advisor. Quando uma plataforma automatizada sugere uma carteira, ela precisa demonstrar — ao cliente e ao regulador — os critérios da sugestão, a aderência ao perfil de suitability e a supervisão humana sobre o serviço. "O algoritmo decidiu" não é uma defesa que se sustenta perante a CVM.

Quais usos de IA exigem mais cuidado na prática?

Nem todo uso de IA carrega o mesmo risco regulatório. Três frentes concentram a maior parte das preocupações:

IA na concessão de crédito

É o caso mais sensível. Modelos de scoring podem reproduzir vieses presentes nos dados históricos e negar crédito a perfis de forma sistemática e injustificável. Por isso, explicabilidade aqui não é luxo: a instituição precisa conseguir dizer por que negou — e o cliente tem o direito, pela LGPD, de pedir a revisão de uma decisão tomada unicamente com base em tratamento automatizado.

IA em prevenção à fraude e PLD

São usos de altíssimo valor, mas que lidam com falsos positivos (bloquear um cliente legítimo) e falsos negativos (deixar passar uma fraude). Ambos têm custo — reputacional, financeiro e regulatório. A trilha de auditoria que registra por que uma transação foi sinalizada é o que sustenta a decisão depois. Para entender como isso se aplica na gestão de despesas corporativas, veja nosso guia completo.

IA em atendimento e recomendação ao investidor

Chatbots e assistentes que orientam clientes podem configurar recomendação de investimento ou prestar informação incorreta. O desenho do sistema precisa delimitar com clareza o que é informação geral e o que é recomendação personalizada — e garantir supervisão sobre a segunda.

O que o regulador espera, na prática?

Independentemente da norma aplicável, há um núcleo comum de expectativas: documente o que o modelo faz, mostre que alguém o supervisiona e prove que é possível reverter uma decisão.

  • Governança de modelos: defina quem aprova, quem monitora e quem descontinua cada modelo de IA, com responsabilidades nominais. Um modelo sem dono é um risco sem controle
  • Documentação e explicabilidade: saiba descrever como o modelo funciona, quais dados utiliza e por que chega a determinado resultado — em linguagem que o supervisor e o cliente entendam
  • Supervisão humana e trilha de auditoria: mantenha registro rastreável das decisões que impactam clientes, de modo a permitir revisão e, se necessário, reversão. A trilha é a principal evidência em uma fiscalização
  • Due diligence do fornecedor de IA: avalie segurança, continuidade e conformidade do prestador antes e durante a contratação — e não só na assinatura do contrato
  • Conformidade com a LGPD em todo o ciclo do dado: da coleta e do treinamento ao uso, à retenção e ao descarte, com base legal adequada para cada etapa

Para entender como estruturar esses controles na prática, veja os artigos sobre compliance jurídico no uso de IA e quem responde quando a IA erra uma decisão.

O Marco Legal da IA (PL 2338) muda esse cenário?

O Projeto de Lei 2338, em discussão no Congresso Nacional, tende a somar uma camada de classificação por nível de risco e obrigações de transparência aplicáveis a sistemas de IA. A lógica é graduar exigências conforme o potencial de dano: quanto mais sensível o uso, mais rigorosos os controles. Boa parte das aplicações financeiras — crédito, biometria, decisões que afetam direitos — tende a cair nas faixas de maior atenção.

Para o setor financeiro, o texto reforça a direção que BACEN e CVM já apontam: mais governança, explicabilidade e accountability sobre decisões automatizadas. Quem estrutura controles hoje não antecipa uma obrigação nova — consolida uma postura que o futuro marco apenas tornará explícita.

E quem apenas usa plataformas financeiras com IA, sem ser regulado?

Empresas que apenas utilizam plataformas financeiras com IA, sem serem instituições reguladas, herdam o nível de maturidade dos seus fornecedores. Quando o prestador opera com governança de dados, trilha de auditoria e segurança robusta, a empresa contratante facilita o próprio compliance: reduz risco de terceiros e tem evidências prontas para auditorias.

É exatamente por isso que, ao escolher uma plataforma de gestão de despesas corporativas e cartão corporativo, vale olhar para os controles do fornecedor. Na hora de uma auditoria, ter um fornecedor que já documenta quem fez o quê, quando e por quê é a diferença entre apresentar evidências e reconstruir histórico.

Como a Payfy facilita o compliance regulatório

A Payfy, plataforma brasileira de gestão de despesas corporativas e cartão corporativo com IA, incorpora na própria operação os pilares que o supervisor pressupõe:

  • Governança de dados e segurança da informação: o tratamento das informações financeiras da empresa segue controles de acesso e proteção compatíveis com o que a área de risco espera de um fornecedor
  • Trilha de auditoria de decisões e aprovações: registra quem fez o quê, quando e por quê — a evidência que sustenta uma fiscalização ou revisão posterior, sem precisar reconstruir histórico
  • IA aplicada com supervisão humana: combina automação de tarefas repetitivas com a possibilidade de revisão das decisões — em linha com a expectativa regulatória de explicabilidade e reversibilidade
  • Conformidade com a LGPD e integração com ERPs: o ciclo do dado permanece rastreável e consistente da origem até os sistemas contábeis. Para entender como funciona a integração com ERP, veja nosso guia
Se a sua empresa está estruturando governança sobre o uso de IA financeira, vale conhecer de perto como a Payfy aplica inteligência artificial com governança de dados, trilha de auditoria e segurança. Agende uma demonstração gratuita.

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